Por Wesley Silas
O silêncio também mata. Em Gurupi, onde mais de uma medida protetiva é concedida por dia para proteger mulheres da violência, a sociedade se organiza para dizer basta. Nesta quarta-feira, 11 de março, às 17h, no Parque Mutuca, acontece o movimento “Vozes que Não se Calam”, em memória das vítimas de feminicídio e em defesa da vida de todas as mulheres que ainda precisam ser ouvidas, acolhidas e protegidas.
O ato é um chamado à responsabilidade coletiva: nenhuma mulher deve viver com medo.
O movimento é organizado pela Secretaria Municipal da Mulher e pelo Poder Judiciário representado pelo juiz titular da Vara Especializada no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e Crimes Dolosos contra a Vida da Comarca de Gurupi, Jossanner Nery Nogueira Luna. A comarca abrange, além de Gurupi, os municípios de Aliança do Tocantins, Cariri do Tocantins, Crixás do Tocantins, Dueré, Figueirópolis e Sucupira.
A realidade em números: mais denúncias, mais proteção
Dados da Vara Especializada mostram um crescimento constante no número de medidas protetivas concedidas na Comarca de Gurupi:
– 2021 – 265 casos
– 2022 – 321 casos
– 2023 – 371 casos
– 2024 – 410 casos
– 2025 – 487 casos
Em média, mais de uma mulher por dia buscou e obteve proteção judicial em 2025.
Também houve aumento no número de processos de violência doméstica:
– 2023 – 316 casos
– 2024 – 346 casos
– 2025 – 329 casos
O crescimento das denúncias reflete o fortalecimento da rede de proteção e o encorajamento das mulheres a romperem o silêncio. Muitas, porém, ainda desconhecem seus direitos e os serviços disponíveis.
O relato de uma vítima atendida em Gurupi revela a dimensão dessa falta de informação:
“Se eu soubesse que a rede amparava e protegia as mulheres, eu não teria ficado cinco anos em um cativeiro.”
Feminicídios em alta e o papel das medidas protetivas
Na inauguração da Casa da Mulher Tocantinense em Gurupi, em 26 de fevereiro, o juiz Jossanner Nery Nogueira Luna reforçou a urgência do fortalecimento da rede de proteção na região sul do Estado, diante do aumento das medidas protetivas e dos casos de feminicídio no município.

“Infelizmente, não temos redução dos feminicídios em Gurupi. Tivemos, em 2025, sete casos; em 2024, oito; e em 2023, dois casos”, informou.
Com base em dados do Anuário da Segurança Pública, o magistrado ressaltou a eficácia das medidas protetivas na prevenção de mortes de mulheres:
“Apenas 9% das mulheres que têm medidas protetivas foram vítimas de feminicídio. Deixo aqui meu alerta para todas as mulheres que vivam qualquer situação de violência física ou psicológica: procurem a Delegacia de Polícia, o Poder Judiciário e o Ministério Público e solicitem a proteção. Isso inibe o feminicídio.”
Ele também destacou a agilidade da Justiça em Gurupi:
“Enquanto no Estado do Tocantins se demora, em média, 546 dias para julgar um processo criminal, em Gurupi conseguimos concluir em 246 dias. Em torno de sete meses o agressor já estará condenado. Nos casos de feminicídio, entregamos as sentenças em cerca de 16 meses, com penas efetivas que devem ser cumpridas.”
Transformar dor em voz e memória em luta
Diante desse cenário, a secretária municipal da Mulher, Cristina Donato, defende que a resposta da sociedade precisa ir além da indignação pontual. É preciso transformar luto em ação.
“Toda vez que uma mulher é silenciada pela violência, uma família é destruída, um futuro é interrompido e a sociedade inteira perde um pouco da sua humanidade”, alerta a secretária.
O movimento “Vozes que Não se Calam” nasce exatamente desse compromisso:
transformar dor em voz, memória em luta e indignação em mudança concreta.
Um convite à responsabilidade coletiva
Participar do ato no Parque Mutuca é mais do que estar presente em um evento público. É assumir, diante da cidade, o compromisso de não normalizar a violência, de apoiar as vítimas e de cobrar políticas públicas contínuas e eficazes.
Serviço – Movimento “Vozes que Não se Calam”
📍 Local: Parque Mutuca – Gurupi
🗓 Data: 11 de março
⏰ Horário: 17h
Quando uma mulher é silenciada pela violência, toda a sociedade é chamada a falar mais alto.
Em Gurupi, as vozes que não se calam querem fazer ecoar uma mensagem clara: nenhuma mulher a menos.









