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Porque devemos protestar no Brasil

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins4 de junho de 2017 - 20:104 minutos de leitura
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“Nosso salário mínimo é uma miséria. No Brasil, negro e pobre têm maiores possibilidades de serem parados em blitz. Os pardos são presos em maior número. Pobres cumprem a pena na prisão e ainda amargam meses, às vezes, anos, sem conseguirem o alvará de soltura. Cidadãos e cidadãs furtados, roubados e estuprados preferem não fazer Boletim de Ocorrência. Pensam: não adianta mesmo. Poucos acreditam no sistema judiciário em todas as instâncias”, Ricardo Gondim.


Ricardo Gondim

Devemos tomar as ruas. Nosso protesto não precisa ser tempestivo. Nosso imperativo vem de longe. O cearense Capistrano de Abreu escreveu há mais de cem anos: “… a mim me interessa o povo, há três séculos capado e recapado, sangrando e ressangrando”. Sim, o povo esmagado por oligarquias patriarcais e pelo grande capital carece que todos resistam. “A praça é do povo como o céu é do condor” [Castro Alves].

Nosso salário mínimo é uma miséria. No Brasil, negro e pobre têm maiores possibilidades de serem parados em blitz. Os pardos são presos em maior número. Pobres cumprem a pena na prisão e ainda amargam meses, às vezes, anos, sem conseguirem o alvará de soltura. Cidadãos e cidadãs furtados, roubados e estuprados preferem não fazer Boletim de Ocorrência. Pensam: não adianta mesmo. Poucos acreditam no sistema judiciário em todas as instâncias. Perdura no país o medo de que existe tráfico de influência, conivência e até corrupção em tribunais e cortes. Atira antes de perguntar, principalmente nas favelas. Tiroteio com “bala perdida”, se não mata, nem chega a ser notícia. Só se considera chacina na execução sumária de mais de cinco. Charlatanismo – exercício ilegal da medicina –  tornou-se prática comum nos programas religiosos da televisão. Jamais um pastor-curandeiro cumpriu pena.

“Para custear tanta corrupção, sobram leis, impostos, fiscais, taxas, sobretaxas e mais impostos”. Gondim.

Toda semana um novo escândalo político, maior que o anterior, pauta o noticiário. E a cada novo escândalo, o anterior perde evidência. Vai-se criando uma cultura complacente. Os caciques do parlamento já se valeram de cabeças de gado, do milagre divino e até de sucessivos prêmios na loteria para explicar a dinheirama que lhes quadruplicou a fortuna pessoal. Caixa dois de campanha é comum. Financiamento de partidos, com subsídio de empreiteiras, tornou-se prática ordinária. Pontes, estradas, viadutos, passarelas e agora estádios, custam até dez vezes mais do orçamento inicial. Construtoras “acertam” o preço das obras em licitações viciadas. As estradas permanecem esburacadas, o transporte público encontra-se sobrecarregado e os aeroportos, ultrapassados.

Para custear tanta corrupção, sobram leis, impostos, fiscais, taxas, sobretaxas e mais impostos. Parece não ter fim a sanha de esfolar o trabalhador. Empresários se defendem com mais corrupção. O salário dos parlamentares, somados aos benefícios, pagaria dezenas (em alguns municípios, centenas) de professores. Passou da conta. Ninguém aguenta o cinismo de filhos e filhas de corruptos, posando de patricinhas e mauricinhos.

No Brasil, os próprios bancos chegam a se envergonhar dos lucros – inéditos no planeta.

“Agora é engajar ou morrer. Nas ruas, os jovens gritaram: O gigante acordou, o gigante acordou”. Gondim.

Hospitais públicos sucateados não conseguem tratar os pacientes com um mínimo de dignidade. Anciãos morrem pelos corredores. Crianças agonizam em berçários neonatais. Doentes esperam meses por uma cirurgia que poderia lhes salvar. Falta remédio. Devido à escassez de saneamento básico, dengue e chikungunya se tornaram endêmicas.

O ensino público entrou em colapso.

O leque dos desmandos que precisam ser consertados é amplo. Diante de tamanha desarrumação, corre-se o risco de não chegar a lugar nenhum. E a crise atolar o país de vez. A pressão popular deve continuar. É essencial que o povo permaneça nas ruas. Chegou a hora de todos os atores sociais se envolverem: partidos que ainda mantém algum idealismo, ateus, pastores, teólogos e crentes progressistas das igrejas católica e protestante – e de outras religiões -, terceiro setor que amarga o dia a dia dos pobres. Agora é engajar ou morrer. Nas ruas, os jovens gritaram: O gigante acordou, o gigante acordou. Resta provar que o refrão é verdadeiro. Continuemos.

Soli Deo Gloria


Ricardo Gondim é escritor e teólogo,  presidente  da Convenção Betesda Brasil. E-mail:  [email protected]

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