Tratado encerra 25 anos de negociações, amplia integração entre Europa e América do Sul e reforça o peso do Brasil no comércio internacional
Por Redação
A União Europeia (UE) aprovou, nesta sexta-feira (9), o acordo de livre-comércio com o Mercosul, concluindo um processo de negociação que se estendeu por mais de 25 anos, desde 1999. O tratado cria a maior área de livre circulação de bens entre blocos regionais, abrangendo cerca de 780 milhões de pessoas na Europa e na América do Sul, e aprofunda a integração econômica entre os dois lados do Atlântico.
A França foi o principal foco de resistência até a reta final. O presidente Emmanuel Macron vinha sustentando que os ganhos para a economia francesa seriam limitados e manifestava preocupação com a possibilidade de enfraquecimento dos padrões ambientais, sanitários e fitossanitários da União Europeia diante do aumento das importações agrícolas do Mercosul.
Para o Brasil, a ratificação é vista como um marco para o agronegócio e a indústria, ao garantir acesso ampliado e mais previsível a um mercado de aproximadamente 451 milhões de consumidores com alta renda per capita. O acordo também é interpretado em Brasília como instrumento de diversificação de parceiros, redução da dependência de poucos mercados e estímulo à entrada de investimentos produtivos.
Negociado desde 1999 e politicamente destravado no fim de 2024, o tratado estabelece as bases para uma zona de livre-comércio que deve envolver algo em torno de 700 a 780 milhões de pessoas. No caso brasileiro, o alcance do acordo ultrapassa a simples abertura de mercados: ele se insere em uma estratégia de inserção em cadeias globais de maior valor agregado, sobretudo nos segmentos industrial, de serviços e de tecnologia.
### Principais pontos do acordo
De acordo com informações da Comissão Europeia, o texto prevê a eliminação de tarifas de importação sobre cerca de 91% do comércio de bens entre UE e Mercosul, com prazos graduais de implementação e salvaguardas específicas para setores considerados sensíveis em ambos os blocos.
Atualmente, diversos produtos brasileiros enfrentam tarifas elevadas ao entrar no mercado europeu, enquanto bens industriais europeus estão sujeitos a alíquotas que podem chegar a 35%, no caso de automóveis, e até 20% em máquinas e produtos químicos no Mercosul. O acordo reduz de forma significativa essas barreiras tarifárias e inclui mecanismos para enfrentar barreiras não tarifárias, como exigências técnicas, normas de certificação e procedimentos aduaneiros complexos.
Além da dimensão comercial, o tratado contempla capítulos sobre desenvolvimento sustentável, regras ambientais, compromissos trabalhistas e mecanismos de solução de controvérsias. A intenção declarada de ambas as partes é alinhar a expansão do comércio a padrões mais rígidos de proteção ambiental e social.
Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, o acerto reflete movimentos mais amplos da geopolítica econômica:
“Para a União Europeia, concluir esse acordo é uma forma de diversificar riscos e reduzir dependências em um cenário global marcado por tensões comerciais e reconfiguração de cadeias produtivas. Para o Mercosul, trata-se de uma oportunidade de ganhar previsibilidade, atrair investimentos e fortalecer sua relevância estratégica, ainda que isso envolva concessões significativas”, avalia.
### Contexto geopolítico
O ambiente internacional exerceu papel decisivo na retomada das negociações. O avanço de medidas protecionistas e de elevação de tarifas, especialmente durante o governo Donald Trump nos Estados Unidos, contribuiu para aproximar posições de europeus e sul-americanos em defesa de um comércio internacional mais baseado em regras multilaterais.
Em paralelo, o fortalecimento da China como principal parceiro comercial de vários países da América do Sul levou Bruxelas a acelerar uma agenda de acordos com regiões estratégicas, buscando evitar perda de influência econômica e diplomática. Nesse contexto, o Mercosul – e em particular o Brasil – passou a ser visto como parceiro-chave para garantir acesso seguro a alimentos, energia, minerais críticos e mercados consumidores em expansão.
Para o Brasil e seus vizinhos, a aproximação com a UE oferece contrapeso à crescente dependência de exportações de commodities para o mercado asiático. A perspectiva, segundo diplomatas e analistas, é que o acordo contribua para diversificar tanto a pauta exportadora quanto o destino das vendas externas sul-americanas.








