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Jesus, o escolhido dos milhares

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins27 de dezembro de 2015 - 20:006 minutos de leitura
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Ricardo Gondim

Que personagem varou os séculos e mesmo agora, milênios depois, continua a impressionar homens e mulheres em todos os lugares? O que há de especial no filho de um carpinteiro, e de uma jovem camponesa, que saiu da obscuridade aos trinta anos, não deixou uma só linha escrita para a posteridade, não arregimentou nenhum soldado, não conquistou nenhuma cidade? Qual o mistério? Por que ele continua nos lábios do crente, na súplica do doente e no grito de esperança do sonhador?

Que verdades esse andarilho judeu falou? O que ele dizia enquanto visitava os cemitérios para tocar em leprosos? Como acolhia as mulheres de vida duvidosa e como se deixava tocar por elas? Quem foi ele? O que o despertou em seus estudos da Torá para incompatibilizar-se com as elites poderosas de seu tempo? Como conseguiu conciliar em um só grupo, pescadores sem educação formal e contestadores do regime imperial de Roma? Como um grupo tão heterogêneo se tornou uma das forças transformadoras do mundo antigo? Que motivações o faziam dócil com os pobres, condoído com as viúvas e corajoso para libertar a adúltera das malhas de uma lei misógina?

Tais questionamentos vararam os séculos. Por que o carpinteiro de Nazaré continuam a intrigar historiadores, a confundir filósofos e a perturbar mentes críticas? Por sua vida singela, ele não deveria ficar relegado aos relatos de rebeldes que morreram devido a pretensões messiânicas? Comparado aos pensadores do Iluminismo, ele não merecia passar de um judeu místico e irrelevante? Diante dos argumentos nietzschianos, ele não podia ser apenas mais uma muleta que a humanidade usou para enfrentar as agruras da existência? Diante do diagnóstico de Freud, ele não podia ser mais um personagem perturbado por um modelo familiar disfuncional?  – ele descrevia a si próprio ou a neurose humana?

Talvez jamais consigamos responder a essas indagações. Contudo, Jesus continua amado de bilhões; permanece o tema tanto das canções de ninar como da música espetacular de Hendel; é a inspiração dos falidos para caminhar adiante; é o patrono dos perdidos e é o paraninfo dos esquecidos. Para o poeta da melancolia, Jesus é a estrela da manhã; para o poeta da paixão, o lírio dos campos; para o poeta do existencialismo, o artesão de um novo amanhã; para o poeta da esperança, o norte da bússula. Jesus permanece como pedra angular no lodaçal da vida. Sua história é puro lirismo, sua empatia com o pobre, pura compaixão, seu anseio de justiça, pura esperança. As metáforas se somam à simples menção do seu nome e nenhuma consegue articular o encanto que ele suscita.

Através dos séculos, repetidas religiões narraram lendas sobre a visita dos deuses entre os homens. A encarnação da divindade, contada pelos primeiros cristãos, não era totalmente inédita. Tanto na Babilônia, Grécia, e na própria Roma, os deuses já tinham se feito gente. A novidade cristã, sem precedentes históricos, veio da humildade. Jesus não nasceu de um modo espetacular. José, o pai, estava inquieto. Incrédulo. Tomado pelo medo. Ele precisou da intervenção de um anjo. Sem um sinal, talvez jamais aceitasse que a semente que Maria carregava não era fruto de um adultério. Ela estava grávida de virtude – do Espírito Santo.

Numa noite qualquer, que jamais será cravada com precisão no calendário, um punhado de pastores pobres, que guardava o rebanho nas caladas da madrugada, percebeu o aviso das estrelas e das hostes celestiais.

Daí por diante, a sua história se confunde com a história de tantos. A família de Jesus se viu obrigada a refugiar-se no Egito. E lá experimentou a vida dura de todo refugiado: preconceito, pobreza, falta d’água e um mínimo de comida.

Jesus viveu em obscuridade até os trinta anos. Trabalhou com as mãos cortadas, ásperas, calejadas, Seu cotidiano foi penoso – igual aos de seus pares. Não se sabe de qualquer milagre ou ação espetacular que aliviasse a sua sorte. Jesus aprendeu no que sofreu.

Um dia, consciente de sua missão, o Amante dos Pecadores partiu para a periferia, não para o centro do poder. Em sua missão, ele não impôs, jamais exibiu, nada reivindicou. Jesus queria tão somente partilhar as dores, celebrar as alegrias, inspirar sede de justiça e fazer o bem. Nele, os pobres acharam o bálsamo para as feridas da alma, o lenço para as lágrimas do espírito e o ombro para o coração fadigado. Desde o seu nascimento já se via que ele estava disposto a experimentar a kenosis – o esvaziamento, o rebaixamento. O Filho do Homem jamais empunharia um cetro. Sua glória se manifestou ao apanhar uma bacia e lavar os pés de seus amigos. Depois, na cruz, revelou sua grandeza inigualável.

"Jesus lutou para libertar as pessoas do medo do Javé vingador. Ele quebrou as paredes que separavam homens e mulheres", Ricardo Gondim
“Jesus lutou para libertar as pessoas do medo do Javé vingador. Ele quebrou as paredes que separavam homens e mulheres”, Ricardo Gondim

Jesus não pretendeu liderar um movimento político. Judas, o Iscariotes, errou ao imaginar que ele se insurgiria contra o imperialismo de Roma. Jesus não buscou reinventar o judaísmo como temeram os rabinos, líderes do Templo. Ele não foi um luminar da filosofia como suspeitaram os concílios que o sucederam depois de Constantino. Jesus não disputou, e nem contendeu, com fundadores de outras grandes religiões – como o hinduísmo e o budismo. Jesus lutou para libertar as pessoas do medo do Javé vingador. Ele quebrou as paredes que separavam homens e mulheres; através dele, caíram por terra: nacionalidade, gênero e status social. Jesus se esforçou para comunicar que Deus deseja construir o seu tabernáculo no coração das pessoas.

Jesus, o amigo de Maria Madalena, mostrou ser possível amar sem fazer inventários da vida passada. Jesus, o hóspede de Zaqueu, mostrou ser possível rejeitar o sistema corrompido. Jesus, o réu de Herodes – que ele chamou de raposa – , triunfou sem insuflar ódio.

Jesus é a metáfora humanizada, a poesia vertebrada, o verbo adensado, a música balbuciada. Ele permanecerá, apesar de tudo o que se praticou em seu nome. O Conselheiro maravilhoso, o príncipe da paz, continua o escolhido entre milhares para ser o nosso salvador.

Soli Deo Gloria


Ricardo Gondim é escritor e teólogo,  presidente  da Convenção Betesda Brasil.  E-mail: [email protected]

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