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O afeto antes da razão

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins14 de dezembro de 2015 - 23:114 minutos de leitura
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Ricardo Gondim

Por vezes pretendi parar de escrever neste espaço virtual. Credito à falta de tempo –  quem sabe à fadiga – o fim de minha relação com possíveis leitores que me visitam aqui.

Quero parar também porque noto abrirem-se largos hiatos entre o que penso, sinto e conjecturo e a minha capacidade de expressá-los. Eu me exponho a riscos sempre que começo a escrever. Posso ser devorado por quem me espreita em busca de desvios. Suscito incompreensão. Ademais, alcancei algumas intuições sobre a religião que, se reparto, me indisponho ainda mais com quem um dia partilhou de minha amizade.

Digo isso porque no espaço religioso a verdade depende muito de sentimentos; mais do que supomos. As pessoas se apegam a convicções devido a laços familiares, culturais e afetuosos. Filtramos nossas crenças a partir de nossas simpatias e antipatias, traumas e surpresas. Na história – alegre ou decepcionada – de cada um a crença ou a descrença se consolida.

Godim 2O berço, nosso ninho primordial, é responsável por erguer as catedrais onde cultuamos ou negamos Deus. Nossa relação com o colo materno – a gênesis de nossa primeira segurança – produz várias persuasões. E com elas sedimentamos crenças.  O que acreditamos é guardado por afeto ou por ojeriza antes de ter força racional. Estou certo que nenhum argumento tem força de esvaziar uma certeza.

Ninguém abandona o chão que lhe sustenta sentimentalmente. Os afetos são tudo para nós. Ninguém é persuadido a deixar, por arrazoamento lógico, o que lhe é caro. Acreditamos ou desacreditamos porque amamos ou odiamos. A religião não sobrevive de verdades, ela é filha de nossa paixão.

Só nos aprofundamos naquilo que nos importa. Quando a agenda de quem escreve, discursa ou prega não coincide com quem lê, ouve ou discute, os olhos deslizam sobre as palavras e os ouvidos se fecham. Sobram bocejos.

Alimentamo-nos do que amamos, enraizamo-nos no que nos intriga. O que escrevo alcança apenas quem já estava minimamente simpático aos conceitos que deixei vazar. Se minhas divagações conduzem a prados estranhos, sou escanteado. Se faço conexão com autores distantes do cânone de alguém, sou rechaçado. Se topo enfrentar oceanos que não desafiam o outro, a leitura não passa da primeira linha.

A religião é também fonte de rede de sentido. Quando doutrina e vida colidem, a doutrina deveria perder. Mas nem sempre acontece. Para fazer a vida ter sentido, as afirmações categóricas da religião são esticadas, moldadas e adaptadas. Diante de um paradoxo existencial, facilmente criamos chavão, slogan, doutrina, para dar conta da realidade que nos apavora. As tragédias cobram explicação e precisamos de uma resposta mínima. Daí as pessoas criam suas certezas – científicas, filosóficas, ideológicas ou teológicas – para se preservarem da loucura. Em momentos críticos, elas se sentem livres até para serem incoerentes; divorciadas da realidade e inconsistentes, mas vivas.

Reagimos ao risco de existir, aos percalços do dia a dia, com os conteúdos que nos dão sentido; sejam eles meio malucos, ilógicos, alienantes ou não. Na hora em que for necessário debulhar o infortúnio, não hesitamos em procurar alento em provérbio de para-choque de caminhão, astrologia, tarô, ou até na providência divina. Criamos o nosso próprio chão, a nossa própria pedra de sustentação, e com ele vamos tocando a crueza da existência.

Cartilhas de teologia, aulas de catecismo e livros de apologética só alimentam bate-boca. Seminaristas, alunos de escola dominical e pretensos defensores da glória de Deus, sabem que suas certezas não são inquestionáveis.

Por esses motivos, sinto-me desmotivado a escrever com conteúdo religioso. Hoje, a lengalenga teológica me dá arrepios furibundos. Já que muitos me identificam com o mundo da religião, acabo desmotivado. Desejo escrever para fora do meu antigo círculo. Como faltei a inúmeras aulas de português, ainda tenho um longo dever de casa para melhorar a redação. Minha criação literária e estilo ainda são pobres. Sei que não escrevo com excelência; comecei a gostar de literatura tardiamente. Espero conseguir chegar ao coração dos leitores, bem antes de ter força de convencê-los das minhas razões. Talvez consiga – se não desistir.

Soli Deo Gloria


 

Ricardo Gondim é escritor e teólogo,  presidente  da Convenção Betesda Brasil.  E-mail: [email protected]

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