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O imperativo de amar

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins18 de agosto de 2015 - 23:464 minutos de leitura
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Ricardo Gondim

Escrevo sobre experiências que armazenei em algum recôndito do coração. Talvez procure preservar momentos sagrados antes de perder a memória.

Em passeios pelo passado, sofro. Retorno a lugares que me marcaram. Noto como o meu mundo adulto encolheu. Em meu universo menino, tudo parecia mais vasto: casa, praça, igreja, clube. Meus olhos enxergavam grande, enorme.

De Londrina revejo o pó vermelho que me encardia os pés e enrubescia o céu nas tardes de temporal (como eu tinha medo). Lá, tento ressuscitar vultos. Por onde andam os primeiros amigos que me ensinaram a nadar em ribeiros e represas? A velha catedral londrinense não mais existe. Todavia não esqueço o rosto do padre que me estendeu o primeiro sacramento.

"Mesmo criança, fiquei cara-a-cara com o terror. Conheci pessoas ruins. "
“Mesmo criança, fiquei cara-a-cara com o terror. Conheci pessoas ruins. “

Meu passado não foi perfeito. Mesmo criança, fiquei cara-a-cara com o terror. Conheci pessoas ruins. Tipos esquisitos me mostraram os perigos de viver.

Papai estava preso pela ditadura. O regime o encarcerou incomunicável na Base Aérea do Galeão. Os eventos se desencadearam rapidamente. Logo antes do golpe, papai tinha pedido transferência de Londrina para alguma outra Base Aérea. Antes do despacho oficial, o governo de João Goulart foi derrubado. Éramos cinco irmãos e mamãe estava grávida de gêmeos. Nossa família foi jogada no olho de um furacão. Estávamos sem eira nem beira. Impossibilitados de voltar à casa militar em Londrina, acabamos na apertada casa da vila onde viviam os meus avós em Fortaleza. Eu precisava estudar. Vovó me matriculou no Grupo Escolar onde trabalhava de merendeira.

O prédio era mal cuidado. As carteiras, pensas, bambaleavam. A lousa ostentava um verde desbotado. Na primeira semana de aula eu e meu irmão nos tornamos o centro da atenção. Nosso sotaque paranaense nos distinguia dos demais. Os outros meninos diziam que soava afeminado.  Certa manhã alguém gritou: “veado”. Nunca vou esquecer. Me voltei na direção da voz, disposto a brigar. Mal dei três passos e seis meninos formaram uma parede humana. Eles pareciam mais fortes e mais velhos do que eu. O primeiro se mostrou afoito. Ele queria brigar. Mas eu não tive coragem de enfrentar os seis. Como não ousei nenhum gesto, o valentão escarrou e cuspiu no meu rosto.

Ódio, raiva, ira, furor, acenderam uma febre súbita por todo o meu corpo. Rompia-se uma indignação represada: a prisão do papai, não ter casa ou quarto para dormir, pressentir que jamais voltaria a me deitar no colo da mamãe, frequentar uma escola vagabunda, ter perdido amigos. Eu era um pote de mágoa. Minha jugular latejava. Tentei não chorar. Voltei as costas para o grupo. Enxuguei o cuspe com a ponta dos dedos. O ódio, entretanto, permaneceu. Por anos, procurei guardar, como uma fotografia, o rosto do meu desafeto. Eu tinha jurado matá-lo.

Hoje, me pergunto se já consegui esquecer aquela afronta. Acho que sim. Depois de tantos anos, tento redesenhar sua cara odiosa. Todavia, ele sumiu. O tempo passou uma borracha em sua expressão desafiadora. Sem um rosto, o ódio perde a força. Embora a memória daquele dia continue, a raiva perdeu seu veneno. Outras decepções me marcaram. A dor não me deixa esquecer: colegas me desdenharam, parceiros me traíram e amigos sentiram vergonha de mim. Por isso, resignifico o meu passado. Aprendi que só neutralizo a vingança se permitir que a bondade substitua a ferocidade do rancor.

Sempre que me perguntam sobre a minha tristeza, respondo: ela é filha das decepções que me afligiram. Essas feridas, contudo, me desdobraram em vários Ricardos. Me tornei quem sou no que sofri. Se aprendo a não deixar que as alegrias me deixem superficial, também não quero que as dores me desfigurem. O ódio entorta a gente. Lembro de Mia Couto: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências”.

Sangrei em minhas muitas existências. Aprendo, porém, resiliência, perseverança e santa teimosia; e com elas me animo a cumprir o imperativo de amar.

Soli Deo Glori


Ricardo Gondim é escritor e teólogo,  presidente  da Convenção Betesda Brasil.  E-mail: ricardogondin2@gmail.com

 
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