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Opnião

Opinião: Governança, Autonomia e Competitividade: um novo modelo para a Universidade de Gurupi – UnirG

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins9 de agosto de 2026 - 19:5911 minutos de leitura
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Uma universidade que alcançou a maturidade necessária para discutir seu futuro precisa também ter coragem para discutir a forma como é governada

Por Jader Tavares

Universidades não são instituições comuns. Elas atravessam gerações, formam profissionais que transformam a sociedade, produzem conhecimento, desenvolvem ciência, participam da vida econômica e cultural de suas regiões e, muitas vezes, tornam-se parte inseparável da própria história das comunidades onde estão instaladas.

Por isso, quando uma universidade alcança determinado grau de maturidade, uma pergunta inevitavelmente se apresenta: a estrutura criada para conduzi-la em determinado momento de sua história continua sendo a mais adequada para enfrentar os desafios do futuro? Essa não é uma pergunta de ruptura. É uma pergunta de maturidade. E ela merece ser feita em relação à Universidade de Gurupi – UnirG. 

A história da UnirG é marcada por crescimento, expansão e transformação. De uma instituição criada para ampliar o acesso ao ensino superior no sul do Tocantins – então território do norte de Goiás -, tornou-se uma universidade com presença regional, múltiplos cursos, infraestrutura própria, milhares de estudantes e papel relevante na formação de profissionais, especialmente em áreas estratégicas para o desenvolvimento do Estado.

Esse patrimônio não pertence a uma administração, a um grupo político ou a uma única geração. Pertence à sociedade. E justamente por isso precisa ser protegido por uma estrutura de governança capaz de pensar para além dos ciclos administrativos e políticos. 

Uma universidade não pode depender de circunstâncias passageiras

O mundo universitário tornou-se extraordinariamente complexo. A competição entre instituições aumentou, os processos de avaliação e regulação tornaram-se mais rigorosos, a tecnologia transformou métodos de ensino e aprendizagem, a pesquisa passou a exigir maior integração, a sustentabilidade financeira tornou-se uma preocupação permanente e a expansão institucional exige planejamento de longo prazo.

Nesse ambiente, administrar uma universidade já não significa apenas garantir que suas atividades funcionem. É preciso pensar estrategicamente, decidir com rapidez quando necessário, planejar para décadas, integrar áreas distintas, estabelecer prioridades, acompanhar resultados e assegurar que as decisões tomadas hoje não comprometam a instituição de amanhã.

É nesse ponto que a governança assume importância. Governança não é simplesmente administração. É a maneira pela qual uma instituição define suas prioridades, distribui responsabilidades, toma decisões, acompanha resultados e assegura continuidade às suas políticas. Uma boa governança deve produzir, entre outras coisas, clareza, integração, responsabilidade, transparência e continuidade institucional.

Governar uma universidade, portanto, não é apenas administrar o presente. É construir condições para que a instituição continue cumprindo sua missão quando aqueles que hoje ocupam posições de liderança já não estiverem presentes. Essa é a verdadeira dimensão da perenidade institucional: preservar valores e propósitos permanentes, aperfeiçoando continuamente as estruturas utilizadas para realizá-los.

E há um conceito particularmente importante nessa discussão: unidade de direção.

Uma universidade pode possuir diversos órgãos, conselhos, unidades acadêmicas e estruturas administrativas. Isso é natural e necessário. A pluralidade, entretanto, não precisa significar fragmentação. Universidades são, por natureza, instituições plurais. A existência de diferentes áreas do conhecimento, órgãos colegiados, unidades acadêmicas e instâncias administrativas não representa um problema; ao contrário, constitui parte de sua riqueza. 

O desafio surge quando essa pluralidade deixa de produzir cooperação e passa a produzir fragmentação estratégica. A boa governança não elimina a diversidade: cria condições para que ela trabalhe em torno de um propósito institucional comum.

Em outras palavras: diversidade acadêmica, sim; fragmentação estratégica, não. 

A singularidade da UnirG

A discussão assume características ainda mais interessantes quando observamos a natureza jurídica e histórica da Universidade de Gurupi.

A UnirG possui uma trajetória institucional singular no ensino superior brasileiro. Trata-se de uma universidade pública municipal mantida pela Fundação UnirG, com características próprias de organização e financiamento. 

Sua condição histórica também é excepcional. Por existir anteriormente à Constituição Federal de 1988, a instituição encontra-se abrangida pela regra do artigo 242 da Constituição, que preservou situações existentes à época quanto à cobrança de mensalidades.

Assim, diferentemente da realidade predominante nas universidades públicas brasileiras, a UnirG desenvolveu sua sustentabilidade institucional essencialmente a partir de receitas próprias, especialmente aquelas provenientes das mensalidades pagas por seus estudantes.

Esse aspecto é fundamental. Uma universidade que precisa assegurar sua sustentabilidade a partir de sua própria atividade educacional encontra-se inserida em um ambiente no qual eficiência, qualidade, reputação, capacidade de inovação e competitividade não são conceitos abstratos. São condições de sobrevivência institucional.

Cada estudante que escolhe outra instituição representa uma oportunidade perdida. Cada curso que deixa de ser competitivo produz consequências. Cada decisão que demora excessivamente pode significar perda de mercado. Cada dificuldade de coordenação interna pode ser aproveitada por instituições concorrentes. 

Logo, a governança da UnirG não deve ser analisada apenas sob a perspectiva administrativa. Ela também precisa ser compreendida sob a perspectiva estratégica e competitiva.

Uma instituição, uma estratégia

A existência de uma mantenedora e de uma instituição mantida é juridicamente compreensível e, em muitos contextos, absolutamente necessária. A questão que merece reflexão é outra: como assegurar que diferentes estruturas institucionais atuem permanentemente em torno de uma única estratégia universitária?

Essa pergunta é particularmente importante quando uma universidade possui estruturas distintas envolvidas em sua condução. Não se trata de questionar a legitimidade de qualquer órgão ou de qualquer pessoa que exerça função dirigente. Trata-se de avaliar o desenho institucional.

Uma universidade pode possuir diferentes instâncias decisórias sem necessariamente possuir diferentes direções estratégicas. O ideal é que exista uma visão comum, uma estratégia comum e uma liderança institucional suficientemente integrada para transformar essa visão em resultados.

É isso que podemos chamar de unidade de direção institucional.

Falar em unidade de direção institucional não significa, necessariamente, defender a simples extinção de uma estrutura ou a absorção de uma pela outra. A questão é mais profunda: trata-se de avaliar se a arquitetura atualmente existente produz o grau de integração estratégica de que uma universidade do porte e da complexidade da UnirG necessita.

A solução jurídica, caso se conclua pela necessidade de mudança, deverá resultar de estudo próprio, respeitando a legislação, a autonomia universitária e as competências institucionais estabelecidas.

O conceito de unidade de direção tampouco significa concentração absoluta de poder, eliminação de colegiados, redução da autonomia acadêmica ou retirada das competências legais das diferentes instâncias. Significa assegurar que ensino, pesquisa, extensão, planejamento, orçamento, infraestrutura, gestão de pessoas, inovação e expansão institucional sejam pensados dentro de um mesmo projeto de universidade.

A política não pode ser maior que a instituição 

Há ainda uma questão que precisa ser enfrentada com maturidade. Instituições públicas estão inevitavelmente inseridas na sociedade e, portanto, relacionam-se com governos, agentes públicos e representantes políticos. Isso é próprio da democracia.

O problema surge quando circunstâncias políticas passam a interferir naquilo que deveria ser decidido prioritariamente segundo critérios institucionais, acadêmicos, técnicos e estratégicos. 

Universidades precisam de estabilidade, planejamento e continuidade. Projetos acadêmicos não podem ser concebidos para durar apenas enquanto determinada administração estiver no poder. A construção de um curso, a formação de um corpo docente, a consolidação de uma pesquisa, a expansão de uma unidade ou a implantação de uma estrutura acadêmica podem exigir anos de trabalho e investimentos significativos. 

Continuidade institucional não significa permanência de pessoas ou de administrações. Significa permanência de propósitos. Dirigentes mudam, governos mudam, conjunturas econômicas mudam e prioridades podem ser aperfeiçoadas. O que não deveria mudar a cada ciclo é a capacidade da universidade de preservar um projeto institucional de longo prazo.

Por esse motivo, a universidade precisa ser maior do que seus ciclos políticos. A governança deve funcionar como uma espécie de proteção institucional contra a descontinuidade, não para afastar a universidade da sociedade ou dos poderes públicos, mas para assegurar que seu projeto estratégico não seja permanentemente condicionado pelas circunstâncias políticas de cada momento.

Pessoas passam. Instituições permanecem. Por isso, uma discussão madura sobre governança não deve ser construída contra pessoas ou administrações específicas, mas a partir da pergunta sobre quais estruturas são capazes de servir melhor à instituição, independentemente de quem esteja temporariamente ocupando suas posições de direção. 

O patrimônio que precisa ser protegido 

Todavia, é preciso mudar a maneira como enxergamos a Universidade de Gurupi. 

A UnirG não é apenas uma estrutura administrativa. Não é apenas um conjunto de prédios. Não são apenas cursos, laboratórios, salas de aula ou equipamentos. Seu verdadeiro patrimônio está nas pessoas que passaram por ela, nos profissionais que formou, nos professores que dedicaram décadas ao ensino, nos pesquisadores que produziram conhecimento, nos servidores que sustentaram sua estrutura e nos estudantes que nela encontraram oportunidades que muitas vezes mudaram suas vidas.

Esse patrimônio não pode ficar submetido a soluções administrativas concebidas exclusivamente para as necessidades de uma determinada época.

Uma universidade madura precisa perguntar continuamente: que estrutura permitirá que aquilo que construímos sobreviva às próximas gerações?

Essa é a verdadeira discussão.

Competitividade também é responsabilidade institucional

 Há quem considere inadequado falar em competitividade quando se trata de uma universidade. Não penso assim.

Competitividade não significa transformar a educação em simples mercadoria. Significa reconhecer que estudantes possuem escolhas, que existem outras instituições disputando espaço e que a qualidade acadêmica precisa estar acompanhada de capacidade institucional para responder às necessidades de seu tempo.

A UnirG compete por estudantes, por professores qualificados, por projetos, por reconhecimento e por relevância regional. E essa competição tende a se intensificar. 

Por isso, uma universidade que possui estruturas capazes de decidir com clareza, planejar com antecedência e executar sua estratégia com continuidade terá melhores condições de preservar sua posição. Não se trata de correr atrás do concorrente. Trata-se de garantir que a própria universidade tenha condições de definir seu caminho.

Uma governança orientada para o futuro precisa reunir algumas características essenciais: clareza na distribuição de responsabilidades, unidade estratégica, capacidade de coordenação, transparência, continuidade institucional e capacidade de adaptação. Todas elas, porém, convergem para um objetivo maior: assegurar a perenidade da universidade e sua capacidade de cumprir a missão para a qual foi criada.

A pergunta que precisa ser feita

Este pode ser, afinal, o momento adequado para uma pergunta que durante muito tempo poderia parecer inconveniente: a estrutura de governança da Universidade de Gurupi está preparada para a universidade que ela se tornou – e para aquela que pretende ser?

Não há resposta simples. E é justamente por isso que a pergunta precisa ser feita.

A resposta deverá envolver análise jurídica, estudos técnicos, participação da comunidade universitária, avaliação das experiências de outras instituições e amplo debate institucional. Não pode ser resultado de improvisação. Não pode ser consequência de interesses circunstanciais. Não pode ser construída contra a universidade. Precisa ser construída para a universidade.

É possível que, ao final desse processo, a conclusão seja pela manutenção da estrutura existente, com aperfeiçoamentos. Também é possível que se conclua pela necessidade de uma mudança mais profunda.

Entre as alternativas que merecem estudo está a construção de um modelo de direção institucional unificada, no qual a universidade disponha de uma liderança estratégica claramente definida, preservadas as competências dos órgãos colegiados, a autonomia acadêmica e as atribuições jurídicas próprias da mantenedora e da instituição mantida. 

Não se trata de importar mecanicamente o modelo de uma universidade federal, estadual ou de outra instituição. A UnirG possui história própria. Sua realidade jurídica é própria. Seu modelo de financiamento é próprio. Sua identidade também é própria.

Porém, experiências de universidades federais, estaduais e municipais demonstram que é possível estruturar instituições complexas em torno de uma direção superior institucionalmente clara, sem eliminar a pluralidade acadêmica nem a participação colegiada. O que importa é encontrar uma solução adequada à realidade da Universidade de Gurupi.

O futuro não pode ser administrado apenas pelo presente

Grandes instituições não são construídas pensando apenas no próximo ano. São construídas pensando nas próximas décadas.

A Universidade de Gurupi já recebeu de gerações anteriores um patrimônio extraordinário. Agora cabe à geração presente decidir o que entregará à próxima.

Talvez a maior demonstração de respeito pela história da UnirG não seja simplesmente preservar tudo como está. Talvez seja ter coragem para perguntar se aquilo que funcionou durante uma determinada etapa continuará funcionando quando a universidade enfrentar desafios completamente diferentes.

Preservar a essência não significa congelar a estrutura. Tradição e inovação não são adversárias. A tradição fornece as raízes; a inovação permite que a árvore continue crescendo.

A Universidade de Gurupi já demonstrou que sabe crescer. O próximo desafio será demonstrar que também sabe governar seu crescimento. 

E essa discussão não deveria ser encarada como ameaça. Deveria ser encarada como oportunidade.

Porque uma universidade verdadeiramente madura não tem medo de discutir sua própria governança. Ela sabe que, quando o debate é conduzido com serenidade, conhecimento, transparência e compromisso institucional, questionar a estrutura não significa questionar a universidade.

Significa acreditar suficientemente nela para imaginar um futuro ainda maior. 

A Universidade de Gurupi merece esse debate. E, sobretudo, merece que ele seja feito não pensando em quem a governa hoje, mas na instituição que queremos entregar às próximas gerações.

Jader Tavares

Cidadão; servidor público

Vinculado à Universidade de Gurupi – UnirG desde setembro de 2001 (25 anos), quando ingressou naquela Instituição por meio de programa de estágio acadêmico

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