Principais Pontos Destacados:
Cobrança x Coerência: O autor aponta a contradição de a gestora cobrar fidelidade e cumprimento de acordos políticos de parlamentares e vereadores (como no caso da presidência da Câmara com o vereador Mateus Monteiro), enquanto acumula um histórico de compromissos não honrados em sua própria gestão — citando casos com a UnirG, a APUG, os servidores municipais (Sisemg) e alianças políticas passadas (Gleydson Nato).
Independência dos Poderes e Função Pública: Defende que emendas parlamentares e investimentos não são favores pessoais ou moeda de troca, mas deveres republicanos dos representantes eleitos em prol do município, independentemente de palanques eleitorais.
Mão Única e Narrativa Prévia: Questiona a construção de uma narrativa antecipada por parte da prefeita para justificar eventuais dificuldades de captação de recursos, alertando que a política é dinâmica e não atende apenas às conveniências de um grupo.
OPINIÃO | Política, conveniência e a memória seletiva do poder em Gurupi
Por Gilberto Silva
No artigo de opinião a seguir, o professor, jornalista e presidente da Apug-Ssind, Gilberto Silva, analisa com profundidade o tom adotado pela gestora municipal, resgatando compromissos passados e alertando que a cobrança por coerência na política deve ser uma via de mão dupla.
Confira o texto na íntegra:
Santa ingenuidade, Batman. Ou a política da conveniência?
Josi Nunes cobra dos vencedores o cumprimento de acordos políticos, mas parece esquecer que compromissos também precisam ser honrados por quem os assume.
A prefeita Josi Nunes está se fazendo de ingênua ou está sendo arrogante? Difícil acreditar na primeira hipótese, considerando a experiência política que acumulou ao longo dos anos. Mas suas recentes declarações, depois do resultado das eleições, permitem, no mínimo, esse questionamento.
Ao anunciar que pretende viajar a Brasília para conversar com a bancada federal e buscar recursos para Gurupi, a prefeita fez uma declaração que merece reflexão. Disse que vai preparar sua “carinha”, porque certamente aparecerá alguém cobrando: “Você não me ajudou, para que quer emenda agora?”
A declaração, aparentemente descontraída, tem um endereço político bastante claro. É uma referência aos parlamentares que venceram a eleição e que não estiveram no palanque de sua candidata ao governo,Professora Dorinha Seabra, e do candidato ao Senado Carlos Gaguim.
Mas vamos colocar as coisas em seus devidos lugares. A eleição terminou. Vicentinho Júnior foi eleito governador do Tocantins, com 64,52% dos votos válidos no Estado. Em Gurupi, obteve 62,94%, contra 37,06% de Dorinha. Alexandre Guimarães também saiu vitorioso na disputa pelo Senado. São resultados eleitorais, não opiniões pessoais. (TSE, 25/10/2026).
E o que a prefeita parece não compreender, ou prefere não reconhecer, é que os vereadores, lideranças e representantes políticos que apoiaram os vencedores fizeram suas escolhas. Não existe obrigação de permanecer eternamente alinhado ao projeto político de quem ocupa a Prefeitura.
Apoiar um candidato, perder a eleição e depois continuar cobrando fidelidade dos demais é uma coisa. Outra,completamente diferente, é querer transferir aos que venceram a responsabilidade pela fragilidade política de quem perdeu.
Gurupi não pode ser refém das escolhas eleitorais da prefeita. Se Vicentinho Júnior e Alexandre Guimarães foram eleitos, devem trabalhar por Gurupi, assim como os demais representantes eleitos. Emendas parlamentares não são presentes pessoais, favores à prefeita ou recompensas por apoio eleitoral. São instrumentos de representação pública, e a população tem o direito de cobrar que seus representantes trabalhem pelo município, independentemente de quem esteve em seus palanques.
Aliás, se a prefeita precisa viajar a Brasília para buscar recursos, que vá. Que converse, apresente projetos,articule, reivindique e consiga investimentos. Essa é uma de suas responsabilidades como chefe do Executivo municipal. Mas não precisa antecipadamente construir uma narrativa de possíveis dificuldades, como se a eventual ausência de recursos pudesse ser atribuída aos adversários políticos que venceram a eleição.Parece até uma tentativa de preparar justificativas antes mesmo de as cobranças acontecerem.
Mas a questão não termina nas emendas parlamentares dos deputados federais e senadores eleitos. A prefeita também resolveu falar sobre a eleição para a presidência da Câmara Municipal e reafirmar seu apoio ao vereador Mateus Monteiro. Segundo ela, existia um compromisso firmado durante a eleição de Ivanilson Marinho para que Mateus fosse o próximo presidente da Casa.
Josi lamentou a mudança de posicionamento de alguns vereadores, que anteriormente integravam sua base de apoio, reduzindo de nove ou dez para sete o número de vereadores alinhados ao seu grupo. Até aí,estamos diante de uma disputa política legítima.
Entretanto, existe uma questão que merece ser colocada. Será que a prefeita esqueceu tão rapidamente como funciona o jogo político? Acordos políticos existem, compromissos são assumidos, alianças são construídas e, muitas vezes, desfeitas. A política é dinâmica. Os vereadores têm mandato, autonomia e responsabilidade perante seus eleitores. Não são propriedade de prefeito, governador ou qualquer liderança política.
É legítimo cobrar coerência de quem assumiu um compromisso. Mas essa cobrança precisa valer para todos,não apenas quando o resultado deixa de atender aos interesses de determinado grupo. Afinal, desde quando os acordos políticos são tratados como compromissos inquebráveis apenas quando interessa a quem perdeu apoio?
E quando os acordos não foram cumpridos pela própria prefeita?
Aqui entramos em outro terreno, que merece ser lembrado. A prefeita Josi Nunes tem uma trajetória política suficientemente longa para saber que acordos e compromissos precisam ser avaliados também pela perspectiva de quem os assumiu e não cumpriu.
Podemos lembrar, por exemplo, da situação envolvendo o então candidato a deputado estadual Gleydson Nato, que, segundo os registros e a memória política daquele episódio, contou com um compromisso de apoio que acabou não se concretizando como esperado.
Também existe uma questão que envolve diretamente a Universidade de Gurupi (UnirG) e a Associação dos Professores Universitários de Gurupi (APUG). Existe documento escrito de próprio punho da prefeita, no qual foi assumido o compromisso de conceder autonomia à Universidade. Passados seis anos de sua gestão, a cobrança pela efetivação desse compromisso continua pertinente. Pior, com profunda interferência na política acadêmica da Universidade, que certamente deixaria o saudoso Jacinto Nunes corado, para não dizer outra coisa. E ninguém pode esquecer que a gestora municipal é professora aposentada da Unirg.
Da mesma forma, existem compromissos e reivindicações apresentados pela categoria dos servidores municipais (Sisemg) com promessas, que nunva tiveram o devido cumprimento. Longe disso. Sem contar as atitudes nada republicanas da alcaide com atendimentos seletivos a quem lhe beija a mão, em detrimento de atitudes democráticas, que agora como se tivesse razão para isso.
Esses episódios merecem ser confrontados com as atuais declarações da prefeita. Afinal, se ela considera importante que os vereadores honrem acordos políticos, por que não aplicar o mesmo princípio aos compromissos assumidos com servidores, professores e instituições públicas?
Não se trata de afirmar que todos os acordos políticos possuem a mesma natureza jurídica ou administrativa.São situações diferentes. Mas existe um princípio que deveria ser comum. Quem assume um compromisso precisa responder por ele. Não é razoável exigir dos outros uma fidelidade que não se demonstra quando a cobrança vem da sociedade.
A política não pode ser uma via de mão única
O que chama a atenção nesse episódio é a tentativa de transformar uma mudança natural no cenário político em uma espécie de dívida moral dos vereadores com a prefeita.
Walter Coelho e Ronaldo Glória e outros podem ser questionados por suas decisões? Evidentemente. Mateus Monteiro pode reivindicar o cumprimento do compromisso que teria sido firmado? Também. Mas a prefeita precisa compreender que não é ela quem determina sozinha os caminhos da Câmara Municipal.
A Câmara não é uma extensão do gabinete da Prefeitura. O Legislativo tem independência, e seus vereadores precisam decidir conforme suas convicções, compromissos políticos e responsabilidades institucionais. Embora tenhamos também muitas críticas às ações e atitudes de vereadores que ficaram esses dois anos só dizendo amém à prefeita. Ou legislando para parte da população ou somente para sua categoria, esquecendo-se eles que são vereadores de todos os gurupienses. Mas isso é para outro artigo de opinião.
Da mesma forma, os parlamentares eleitos seja para a Câmara Federal e para a Assembleia Estadual – e o futuro governador precisam compreender que a disputa eleitoral terminou e que Gurupi continua precisando de investimentos. Não importa quem apoiou quem. A cidade não pode pagar a conta das divergências políticas.
A prefeita tem o direito de cobrar. Os vereadores têm o direito de mudar de posição. Os parlamentares têm o dever de trabalhar pelo município. E a população tem o direito de cobrar de todos.
Santa ingenuidade, Batman
A política tem uma memória seletiva bastante curiosa. Quando os acordos favorecem, são compromissos que precisam ser respeitados. Quando deixam de favorecer, aparecem as justificativas, as mudanças de posição e as novas alianças.
Mas não se pode querer inverter a lógica dos acontecimentos. Perder uma eleição não transforma os vencedores em devedores políticos, assim como conquistar uma eleição não dá a ninguém o direito de exigir submissão dos demais.
Josi Nunes tem experiência suficiente para saber disso. Não precisa preparar a carinha para enfrentar cobranças. Precisa preparar projetos, apresentar resultados, cumprir compromissos e estabelecer relações institucionais republicanas com quem foi eleito.
E, principalmente, precisa compreender que a política não é feita apenas de acordos entre lideranças, mas também de responsabilidades perante a população.
Porque, no final das contas, acordos políticos podem até ser desfeitos, alianças podem mudar e grupos podem se reorganizar. Mas as promessas feitas à população, aos servidores, aos professores e às instituições públicas não deveriam desaparecer depois que as eleições terminam.
Em política, a memória não pode funcionar apenas para cobrar os outros. Também precisa servir para lembrar aquilo que nós mesmos prometemos.
— Gilberto SilvaProfessor aposentado, jornalista e presidente da Apug-Ssind