Por Tom Lyra
Hoje, voltando de uma das minhas visitas a Araguacema, aconteceu algo que me atravessou como faca quente em memória fria.
Eu caminhava pela praça do cais ,ali onde o Araguaia respira mais fundo, sentei numa cadeira antiga do bar do Buck , dessas que rangem como se lembrassem mais do que contam.
O vento trazia o cheiro das jaqueiras do quintal da minha avó ou talvez fosse só a saudade inventando perfumes.
Foi então que vi um senhor, devia ter uns setenta anos. Caminhava devagar pela calçada do convento, rumo as ruínas da igreja velha, como quem costura passos no tempo.
Me pediu carona até o posto de combustível da entrada da cidade, e eu, que naquele momento estava mais à deriva nos meus pensamentos do que dirigindo, aceitei leva lo.
Ele entrou no carro em silêncio. Mas não era aquele silêncio vazio era um silêncio cheio de memórias, do tipo que faz companhia. Ele olhava para fora como quem procura o passado escondido atrás das ruínas da igreja velha e das fachadas novas das casas da rua frei Francisco.
No fim do trajeto, já lá na cidade alta, ele disse sem olhar pra mim:
Faz 50 anos que não passo por aqui… Hoje tentei lembrar quem eu era andando pelas ruas da cidade baixa.
Perguntei, quase sussurrando, se ele tinha conseguido.
Quase, ele me respondeu. Mas obrigado por dirigir devagar… doeu menos.
Desceu do carro , ajeitou o chapéu, e seguiu caminho, pequeno na imensidão da avenida que um dia ele chamou de casa.
Fiquei ali, parado, com a frase dele me roçando por dentro como pedra lisa dos pedrais do rio:
Às vezes, a gente não carrega pessoas. A gente carrega histórias.
E, mais que isso: às vezes, quem está sendo carregado somos nós.
Porque toda vez que volto a Araguacema, sou eu quem tenta lembrar quem eu era.
Procuro minha infância como quem procura um brinquedo perdido na areia da praia da gaivota. Caminho pelas ruas onde um dia corri descalço, esperando encontrar entre uma sombra de mangueira e outra algum fragmento do menino que ficou pelas esquinas da rua Couto Magalhães.
E sempre me pergunto:
Ganhei o mundo… mas será que, no caminho, perdi Araguacema?
Ou perdi um pedaço de mim que ficou preso na curva do rio lá do ponte grossa ?
Saí cedo demais para São Paulo. A cidade me deu asas, verdade. Mas o preço das asas, às vezes, é o ninho.
Hoje, ao ver aquele senhor tentando resgatar seu próprio passado, percebi que eu faço isso sempre que piso aqui. E talvez Araguacema nunca tenha deixado de me pertencer porque, apesar das idas e vindas, continuo voltando.
Volto, assim como fazem todos os Araguacemenses que moram longe , movido por um saudosismo que não machuca… mas aperta.
Um saudosismo que, mesmo doendo, me lembra que ainda existe algo de mim guardado aqui em algum beco dessas ruas centenárias.
E enquanto o sol caía no Araguaia, entendi:
alguns lugares não são apenas geografia são espelhos.
E Araguacema, com todas as suas pontes, sombras e memórias, ainda é o espelho onde tento reconhecer o menino que fui e o homem que me tornei.
Talvez seja isso: o mundo me levou longe demais.
Mas é aqui, na beira do rio Araguaia na minha pequena Aldeia , que me encontro.
Tom Lyra














