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As lições de Bauman e a vida liquida

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins23 de janeiro de 2017 - 21:595 minutos de leitura
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“A insegurança que tanto assusta o ser humano tem sido ampliada com a lógica perversa do capital que tomou conta da sociedade industrial. O casamento, o trabalho, o sexo e o lazer, entre outras coisas, passaram a ser vistos a partir do prisma do vale tudo para se dá bem”.João Nunes


João Nunes da Silva

Doutor em comunicação e cultura contemporâneas, Mestre em Sociologia e professor da UFT Campus de Arraias. Trabalha como projeto em cinema e educação


Há poucos dias o sociólogo Bauman, de 91 anos nos deixou. Ele também deixou um grande legado com seus escritos sobre a vida na sociedade atual.

A principal idéia desse sociólogo polonês diz respeito á liquidez. Ele usou o conceito de liquidez para tratar das diversas situações, problemas e questões da atualidade que tem se tornado freqüente em nosso mundo.

A liquidez é uma ótima idéia para refletir sobre como somos fadados a viver num mundo no qual tudo se desfaz com facilidade impressionante. O sociólogo da liquidez nos mostra que na verdade não temos controle de nada, nem mesmo de nossas vidas e das nossas ações perante os contextos nos quais estamos inseridos.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, faleceu no último nove de janeiro, aos 91 anos.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, faleceu no último nove de janeiro, aos 91 anos.

Hoje vivemos e fazemos de tudo para ter pelo menos o mínimo de controle das nossas vidas; isso para que não nos tornemos marionetes de tudo e de todos.

Em tempos de liquidez as relações sociais, e também as afetivas, acontecem sob o prisma do medo e da insegurança.

O medo nos faz reféns de nós mesmos e provoca transtornos em nossas vidas quando olhamos para um lado ou para outro e não nos sentimos suficientemente seguros para assumir compromissos duradouros e sérios, principalmente no que diz respeito à vida a dois.

Procuramos em cada um de nós algo para se sentir seguros e aí nos damos conta que não somos suficientemente maduros e capazes de tomar atitudes que não nos machuquem tanto e que não machuquemos os outros que por alguma razão está no caminho conosco.

Bauman nos dá a entender que é melhor ter a certeza da insegurança e da fugacidade do que nos agarrar a algo que inexoravelmente não nos oferece segurança suficiente.

Mas o que fazer num mundo pautado no dinheiro, no lucro e no poder pelo poder? O que fazer num mundo no qual as instituições sociais, que foram criadas para favorecer pelo menos a sensação de segurança, já não se mostram suficientes para atender as demandas vigentes?

O que fazer numa sociedade cujo Estado, que, a rigor surgiu como uma forma de contrato para trazer a segurança, tem se tornado cada vez mais principal algoz dos humanos?

Mas aí é que está, tanto o Estado como as demais instituições na sociedade até agora não se mostraram suficientes para garantir a paz, a liberdade e a segurança dos indivíduos.

"Tudo se desfaz numa rapidez espetacular como se nada que existisse fosse para durar mesmo. ' João Nunes.
“Tudo se desfaz numa rapidez espetacular como se nada que existisse fosse para durar mesmo” João Nunes.

Tudo se desfaz numa rapidez espetacular como se nada que existisse fosse para durar mesmo. Mas essa é a idéia mesmo, pois, as coisas não permanecem por toda a vida, uma vez que é por meio das transformações que o sentido da vida se faz presente; a questão é como se manter bem como humano nesse mundo. Quem afinal é equilibrado nesse mundo?

O grande problema quando passamos a ver tudo sob o prisma da liquidez é que não nos damos conta do que precisamos para viver bem, em paz e harmonia. E assim sequer nos encontramos como humanos, pois tudo se coisifica.

Quando tudo passa a ser pautado pela lógica do individualismo solapado pela ganância do dinheiro e do poder, evidentemente que todos passam a ser vistos e tratados como coisas descartáveis. E até mesmo quem defende esse tipo de sistema é vitima dele e não percebe.

Se as pessoas com quem convivemos são apenas vistas como objetos para atender nosso egoísmo, nosso desejo de poder, nossos anseios e ilusões, como podemos ter uma sociedade saudável onde todos passam a ser coisificados?

Nas relações afetivas, por exemplo, não interessa a quantidade de parceiros ou de pessoas com quem nos relacionamos numa noite, ou num momento fugaz, se o vazio é a certeza do que vem depois.

A insegurança que tanto assusta o ser humano tem sido ampliada com a lógica perversa do capital que tomou conta da sociedade industrial. O casamento, o trabalho, o sexo e o lazer, entre outras coisas, passaram a ser vistos a partir do prisma do vale tudo para se dá bem.

As lições de Bauman servem para nos manter alertas quanto ao tipo de mundo que nós mesmos construímos; ou melhor, na armadilha que construímos como humanos para nós mesmos.

Nesse tipo de sociedade o que se mostra mais seguro é saber que tudo se transforma numa rapidez impressionante. Mas há que se pensar no que cada um deve se apegar para não se perder no turbilhão das ilusões.

Bauman João Nunes da Silva Vida liquida
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