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Opinião | A politização da pandemia

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins13 de julho de 2020 - 11:055 minutos de leitura
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“Numa importante e linda cidade de um Estado do Sul, o prefeito faz distribuição de ivermectina como um programa de saúde pública. Ao que se comenta, como não há efeitos colaterais, o programa é bem aceito, sob o crivo de médicos que fazem a ironia: “esses placebos pré-eleitorais, essas gotinhas de cânfora homeopática distribuídas em vidrinho ao povo (coisa que começou em março), esses vermífugos têm efeito zero. Com uma certeza: quem morrer por aqui – seja do que for – morrerá sem sarna, piolho ou vermes.” –  Opinião do jornalista e professor titular da USP – Gaudêncio Torquato.

Cada coisa em seu lugar. Ou, em outros termos, cada macaco em seu galho. A popular expressão aconselha que cada pessoa deve exercer o que é de sua competência, fazer o que é de sua atribuição, sem mexer em coisas que desconhece. Cada um na sua. O conselho cai bem nesses turbulentos tempos em que o Covid-19 foi puxado das salas da medicina para o palanque político. A pergunta é inevitável: permanecesse no campo da ciência, esse mortífero vírus teria matado tanta gente, aqui e alhures? Caso os governantes tivessem adotado as recomendações de especialistas, esse vírus, que mede bilionésimos de um metro, teria infectado mais de 12 milhões de pessoas no mundo (dados desta 5ª feira) e matado até agora cerca de 600 mil pessoas?

Para ficarmos em nossas plagas, se o presidente Jair Bolsonaro não fosse uma das principais alavancas da politização da pandemia, se governadores e prefeitos tivessem adotado medidas tecnicamente necessárias desde os tempos iniciais da crise sanitária, concentraria o Brasil 14% dos diagnósticos do planeta, com 1,7 milhão de infectados e cerca de 70 mil mortes? A resposta de bom senso apontaria para uma quantidade bem menor. O que leva à conclusão: a falta de cumprimento de preceitos da ciência por parte dos gestores públicos tem sido responsável pela mortandade que se espalha, puxando para as nossas cabeças a ideia de que, sob esse prisma, estaria sendo cometido um genocídio.

O fato é que a doença foi conduzida aos laboratórios da política, em que dirigentes tentam descobrir remédios para tirar proveito da situação, em que se indicam drogas rejeitadas por organismos internacionais de saúde pública, infectologistas e biólogos, em que muitos vestem o manto de salvadores do povo, em que se puxa a fé das massas para o balcão das oportunidades. Receitar a tal da hidroxicloroquina ou o vermífugo ivermectina, apenas com ligeiras indicações de que são remédios potencialmente fortes contra o vírus, sendo que em relação ao primeiro há consenso sobre graves danos colaterais, não é um ato de insanidade, desrespeito às recomendações científicas, irresponsabilidade no trato da saúde pública?

As massas tendem a imitar as práticas de seus líderes. Se o presidente da República, do alto de sua autoridade, toma ele mesmo a droga não recomendada por organismos internacionais, por que não devemos fazer o mesmo? Milhares de pessoas assim pensam. Pior ainda é deduzir que muita gente poderá morrer sob os efeitos deletérios do remédio. Por isso, a orientação sobre prevenção, os hábitos de higiene, a quarentena e a reabertura cuidadosa das atividades comerciais, entre as principais medidas, integram o circuito do bom senso. Até surgir a tão esperada vacina, quaisquer outras iniciativas entram no buraco negro da especulação.

Não há outra conclusão para as ações demagógicas que algumas autoridades estão realizando: compram milhões de comprimidos das drogas aqui referidas e as distribuem às populações. Numa importante e linda cidade de um Estado do Sul, o prefeito faz distribuição de ivermectina como um programa de saúde pública. Ao que se comenta, como não há efeitos colaterais, o programa é bem aceito, sob o crivo de médicos que fazem a ironia: “esses placebos pré-eleitorais, essas gotinhas de cânfora homeopática distribuídas em vidrinho ao povo (coisa que começou em março), esses vermífugos têm efeito zero. Com uma certeza: quem morrer por aqui – seja do que for – morrerá sem sarna, piolho ou vermes.”

Infelizmente, a politização da pandemia vai continuar a animar por mais algum tempo as alas bolsonaristas e adversários, pois isso interessa aos polos extremos do arco ideológico. Mas é possível constatar que o copo das querelas e acusações recíprocas começa a transbordar. Só mesmo os 15% dos fiéis radicais do bolsonarismo e um índice até menor da extrema esquerda apreciam este tiroteio verbal. Felizmente, o Facebook está excluindo cerca de 80 contas de seu espaço, acusadas de manipulação por integrantes do tal “gabinete do ódio”, instalado no Palácio do Planalto. Uma companhia do tamanho e respeitabilidade do Facebook não faria isso sem provas. Por isso, devemos acreditar no arrefecimento da polarização. Ademais, fortes contingentes das classes médias, a partir do influente grupo de profissionais liberais, já estão saturados de tanta radicalização. Tendem a se afastar dos extremos. Só não enxergam tal tendência cegos da mente. A conferir.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato

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