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Governo do Tocantins e Iphan estudam enquadramento de cemitério centenário quilombola em sítio arqueológico

Atitude TocantinsPor Atitude Tocantins17 de outubro de 2023 - 13:384 minutos de leitura
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Por Redação

Sob lápides de pedra, cercadas por árvores queimadas, ancestrais quilombolas descansam há mais de cem anos no cemitério conhecido como Campo Santo, região chamada de Bom Jardim, na Comunidade Quilombola Rio Preto, no município de Lagoa do Tocantins, visitado nessa segunda-feira, 16, pelo Governo do Estado, representado pela Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais (Sepot), e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Diretora de Proteção aos Quilombolas na Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais, Ana Mumbuca, e superintendente do Iphan no Tocantins, Cejane Pacini Leal Muniz, visitaram o cemitério Campo Santo, da Comunidade Quilombola Rio Preto. Crédito: Manoel Junior/Governo do Tocantins

O local é estimado pela cantora e tocadora de lundu, Onorata Ferreira Lopes, 78 anos, nascida e criada na região, da qual, segundo ela, só sairá pro Campo Santo. “É um lugar que tenho estima, porque lá estão sepultados meu pai, meu ioiô, minhas tias, meus tios. Quando é Dia de Finados vamos lá colocar velas. Os sepultados lá eram os mais velhos, os troncos velhos, todos daqui”.

Local de sepultamento, chamado de Campo Santo, existe há mais de cem anos, contam os relatos da comunidade. Crédito: Manoel Jr/Governo do Tocantins

As lápides, relembra Onorata, eram construídas pela própria comunidade a partir da lapidação de pedras de um morro próximo, mas atualmente não são mais fabricadas. “Hoje, aqui, não tem mais não. Quem fazia eram os mais velhos, meu pai e meu tio”.

Quilombolas Romário e José Tomás visitam o cemitério dos seus antepassados e contam como a comunidade busca preservar a memória do seu povo. Crédito: Manoel Junior/Governo do Tocantins

Atualmente, o cemitério é protegido somente pela comunidade, que cercou o Campo na tentativa de evitar a invasão pelo gado da fazenda vizinha. “Aquele local é uma tradição, desde que meus bisavós foram enterrados lá, temos uma amizade por aquele lugar de tal forma que jamais deveríamos esquecer. É tanto que fizemos a cerca pra livrar de gado ficar pisando. Temos que preservar aquele lugar”, contou José Tomás Lopes da Silva, representante de mais uma geração de quilombolas, enquanto compartilhava a memória sobre seu povo ao lado do pai, Alfredo Pereira da Silva, 81 anos, que lembra “do meu povo enterrado lá: tia, avô, avó, todos naquele Campo Santo”.

Proteção dos povos tradicionais

Lápides eram construídas pela própria comunidade com pedras de um morro na região conhecida como Bom Jardim, hoje, município de Lagoa do Tocantins. Crédito: Manoel Junior/Governo do Tocantins



“Faz parte da nossa incumbência articular para que esses espaços sejam protegidos, um espaço de memória, assim como o formato da sua preservação: da lápide construída na pedra e as escritas, para marcarem a existência de um povo. Junto ao Iphan, instituição com jurisprudência nessa causa, faremos de tudo para que essa comunidade e espaço sejam protegidos”, explicou a diretora de Proteção aos Quilombolas na Sepot, Ana Mumbuca.

A proteção desses locais é garantida pela lei federal n.º 3.924 de 1961, a qual estabelece que os monumentos arqueológicos ou pré-históricos de qualquer natureza existentes em território nacional e de todos os elementos que neles se encontram ficam sob a guarda e proteção do poder público. Os sítios identificados como cemitérios estão classificados como monumentos arqueológicos.

“Caso seja enquadrado como sítio arqueológico histórico, passa a ser uma área protegida por lei, que não poderá ser destruída e deverá ser preservada. As atividades [no local e em seu entorno] não poderão impactar o sítio. Há necessidade, primeiramente, de realizar uma pesquisa”, esclareceu a superintendente do Iphan no Tocantins, Cejane Pacini Leal Muniz.

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