Por Professor Ederson dos Reis Soares *
O resultado do recente pleito eleitoral no Tocantins trouxe importantes reflexões sobre o peso das estruturas políticas e a dinâmica da vontade popular nas urnas. Em artigo de opinião enviado ao Portal AtitudeTO, o advogado, mestre em Educação e especialista em Gestão Pública, Professor Ederson dos Reis Soares, analisa as estratégias e os bastidores que marcaram a disputa política no Estado.
Em seu texto, o autor argumenta que o favoritismo sustentado pela aprovação governamental e pelo apoio da maioria dos prefeitos e parlamentares não foi suficiente para conter o desejo de mudança do eleitorado. Soares aponta que escolhas estratégicas centralizadas — como a montagem das chapas majoritárias e proporcionais, a pulverização de candidaturas ao Senado e o preterimento de lideranças com apelo popular — resultaram no isolamento de aliados e no fortalecimento da oposição.
Para o articulista, o desfecho das eleições deixa uma lição clara para os próximos pleitos: a força do aparato administrativo e dos acordos de gabinete não se sobrepõe à soberania do voto popular.
O palanque pesou. O povo decidiu!
O resultado das urnas no Tocantins desenhou a maior reviravolta da história política recente do Estado. De um lado, a aparente invencibilidade de um governante, sustentada por expressivos índices de aprovação de 80%, alicerçados numa calculada política de valorização do funcionalismo público e na realização de obras nos lugares onde ele desejava que elas avançassem. Prova desse avanço seletivo é o Novo Hospital Regional de Gurupi, que, durante todo o seu mandato, não recebeu investimentos e continuou com as obras paradas.
Do outro, a crença cega de que o capital político de um líder se transmite por osmose e de que o peso da máquina estatal, fortalecido por uma coligação avassaladora de mais de 110 prefeitos e dezenas de vereadores, seria suficiente para ungir sua sucessora, de perfil essencialmente técnico, a Professora Dorinha.
Tentou disseminar a ideia fixa de que ganharia a eleição para sua candidata porque tinha em seu palanque 80% dos prefeitos, a maioria dos vereadores do Estado, cinco dos oito deputados federais e a maioria dos 24 deputados estaduais.
Talvez esse tenha sido o motivo de tantas quedas. Pesou demais o palanque!
Mas a soberba política, muitas vezes moldada pela vaidade e pelo cálculo maquiavélico de isolar potenciais ameaças aos planos futuros, costuma esquecer uma regra elementar da democracia: o voto não pertence aos gabinetes, à máquina administrativa, aos mandatários e muito menos ao poder político e econômico. Pertence ao eleitor, que está cada vez mais informado e menos “cabresteado”. Nesta eleição, ele deixou uma grande lição para as próximas.
A engenharia palaciana foi meticulosamente traçada de cima para baixo. Sob a força do Palácio, iniciou-se um processo de exclusão e rejeição deliberada de aliados estratégicos que detinham forte apelo popular e representavam sombras para o amanhã.
A estratégia falhou, contudo, ao subestimar a capacidade de articulação dos que foram empurrados para a margem. O plano de isolamento começou a ruir quando o presidente da Assembleia Legislativa, figura importante na sustentação política do Estado, foi preterido no desenho do poder. Mesmo tendo se colocado ao lado do governador durante todo o mandato, converteu-se num polo de oposição interna e assumiu o papel estratégico de candidato a vice-governador na chapa adversária.
O governador preferiu escolher seu sobrinho, Athos Gomes, sem que o grupo soubesse o porquê, uma vez que, mesmo sendo um rapaz de boa índole, não tinha representatividade política nem aceitação dentro do próprio grupo. Athos Gomes foi o primeiro sonho que o governador matou: se candidato a deputado estadual, teria grandes chances de ser eleito.
Ao mesmo tempo, no tabuleiro da disputa majoritária, o deputado federal Alexandre Guimarães, outra liderança de peso que o Palácio tentou sufocar na corrida ao Senado Federal, transformou o cerceamento em combustível eleitoral.
Numa jogada inédita e desastrosa para o grupo governista, o Palácio apoiou quatro candidatos ao Senado para apenas duas vagas disponíveis, recusando-se a definir prioridades e a afunilar a disputa. Esse erro crasso de cálculo e estratégia custou a derrota de mais três aliados: Gaguim, Eli Borges e Ronaldo Dimas. Candidatos que poderiam ter se elegido com facilidade para outros cargos e cujas forças, reunidas em torno de um único nome, poderiam ter garantido mais uma cadeira no Senado. Era o que Gaguim sonhava.
O governador fragmentou e estrangulou os votos da base aliada, permitindo que Alexandre Guimarães canalizasse o descontentamento e conquistasse a vaga que o governo julgava sob controle absoluto. O Palácio ficou com apenas uma cadeira; a outra, nas mãos da oposição.
O erro crucial da cúpula governista foi esquecer que o próprio líder da oposição triunfante, Vicentinho Júnior, conhecia as entranhas daquele grupo. Antigo aliado de primeira hora, o deputado federal trazia consigo a bagagem de três mandatos consecutivos conquistados no corpo a corpo com o eleitorado.
Quando a máquina estadual tentou anular sua relevância, essas lideranças excluídas e rejeitadas uniram seus capitais políticos. Enquanto o Palácio se trancava em gabinetes, celebrando acordos institucionais com as estruturas executivas do Estado e dos municípios, os preteridos foram escutar os vereadores, os líderes comunitários e o povo na ponta.
Nascia ali uma das maiores lições da história do Tocantins. O carro-chefe do discurso governista, a ostentação da máquina pública e o controle dos prefeitos e das prefeituras, ruiu perante a realidade das urnas. O desejo de mudança transformou a rejeição ao discurso e às atitudes palacianas em combustível popular.
O eleitorado respondeu com clareza avassaladora: Vicentinho Júnior, o aliado que o Palácio tentou anular, passou para o segundo turno e consagrou-se como o governador mais votado da história do Tocantins, alcançando 64,52% dos votos válidos, um total de 562.083 votos, contra 35,48% da candidata oficial do governo, que recebeu 309.076 votos.
Mais uma candidatura que a vaidade matou: Professora Dorinha.
A miopia estratégica do arranjo governista não se limitou às cadeiras majoritárias. Estendeu-se, de forma igualmente devastadora, ao tabuleiro das disputas proporcionais. Na engenharia de bastidores montada pela liderança do Palácio, a escolha de candidaturas e os acordos de conveniência partidária transformaram o que deveriam ser vitórias certas num autêntico sepultamento de mandatos e de legítimas aspirações regionais.
O exemplo mais emblemático dessa engrenagem autofágica materializou-se em Gurupi, a terceira maior força política e econômica do Estado. Naquele reduto, a filha de uma das mais importantes aliadas do governo, a prefeita Josi Nunes, bem aceita e herdeira de uma sólida e histórica trajetória política no sul do Tocantins, foi “empurrada” para a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília.
Seu caminho natural, apontado como de êxito quase consensual entre os eleitores da região, seria o Parlamento estadual. Sob as rédeas de um comando que centralizou decisões, mas dispersou forças, Luana Nunes acabou fora da bancada federal, mesmo após conquistar a expressiva votação de 27.352 votos.
Outra vaga que teve a morte decretada pelo líder maior.
Trata-se de um paradoxo cruel, ditado pelas regras do quociente eleitoral e pela falta de visão de grupo: um volume de sufrágios dessa magnitude, que poderia contribuir para eleger até dois deputados estaduais, acabou sem se converter em mandato numa legenda saturada e mal coordenada.
Ao priorizar a vaidade de inflar uma nominata federal artificial, em detrimento do fortalecimento das bases reais, o comando palaciano não só sacrificou uma liderança promissora, como também deixou Gurupi e toda a região sul com apenas dois deputados estaduais eleitos. O “enterro” dessas vagas expôs, definitivamente, o preço cobrado quando os interesses de sobrevivência de um núcleo político se sobrepõem à lógica eleitoral e ao respeito à história das lideranças regionais.
A engrenagem palaciana repetiu o mesmo erro de cálculo ao lançar ao sacrifício o Coronel Barbosa, então comandante-geral da Polícia Militar do Estado do Tocantins. Reconhecido como um líder nato, de perfil técnico, profissional e sem os vícios da política tradicional, por nunca ter ocupado cargos eletivos, o militar reunia as credenciais ideais para oxigenar a chapa majoritária e conferir o equilíbrio necessário à candidatura da Professora Dorinha, assim como Eli Borges, Ronaldo Dimas e outros.
Contudo, numa decisão que o bom senso sugere ter sido ditada pelos interesses do Palácio, e não por aspiração pessoal, conforme divulgado pelo próprio candidato após a campanha eleitoral, o comandante foi empurrado para uma disputa proporcional numa chapa excessivamente pesada para a Câmara dos Deputados.
O resultado seguiu o roteiro da miopia estratégica: mesmo conquistando uma expressiva votação de 28.544 votos, o Coronel Barbosa não logrou êxito na eleição. Dezenas de milhares de votos de confiança dos cidadãos não se converteram em mandato.
O sacrifício de um nome novo e promissor não só privou o Tocantins de uma representação técnica em Brasília, como também expôs a fragilidade de um comando político que preferiu queimar seus melhores quadros em disputas ingratas a utilizá-los de forma estratégica para a sobrevivência do próprio projeto de poder.
A lição que fica gravada na história política tocantinense é indelével. O governante que se esconde atrás de uma máscara de aprovação popular, mas opera nas sombras com estratégias limitadas à condição de líder maior pelo cargo que ocupa, acaba isolado pela própria soberba.
A máquina pública pode muito, e as estruturas executivas têm força. Mas o controle dos gabinetes nunca significará o controle da alma e do voto de um povo soberano.
Os futuros candidatos a vereador, prefeito, deputado e governador, se não aprenderam com o desfecho desta eleição, é bom irem estudando. Quando o povo não quer, de nada adiantam o apoio de 113 dos 139 prefeitos e suas prefeituras, a maioria dos deputados e toda a força política.
Quem manda é o povo!
SOBRE O AUTOR
Professor Ederson dos Reis Soares** é advogado, mestre em Educação e especialista em Gestão Pública, Gestão em Saúde e Direitos Humanos. Graduado em Pedagogia, Letras e Direito, é servidor público há 27 anos. Exerceu três mandatos como vereador em Cariri do Tocantins e presidiu a Câmara Municipal por dois mandatos.
Contato: Instagram: `@dr.edersonsoares` | E-mail: `[email protected]`
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